Conheça o ministério de Carlos René Padilla, pai da Missão Integral

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O teólogo e pastor equatoriano Carlos René Padilla, conhecido como o pai da teologia da missão integral, faleceu aos 88 anos na última terça-feira, 27 de abril. Sua trajetória foi marcada pelo empenho em conscientizar a igreja sobre a necessidade de ações sociais e por sua proximidade com o movimento político de esquerda.

A revista Christianiy Today publicou um longo artigo, traduzido pelo escritor Maurício Zagari, que elencou todos os principais pontos da vida e ministério do teólogo.

O movimento iniciado por ele, teologia da missão integral, é visto por críticos como semelhante à corrente da teologia da libertação, presente no meio católico da América Latina e usado por políticos de esquerda para impulsionar sua ideologia.

Confira abaixo os principais pontos do artigo sobre a vida e ministério de René Padilla:

“Padilla era mais conhecido como o pai da Missão Integral, arcabouço teológico adotado por mais de 500 missões cristãs e organizações de ajuda humanitária, entre elas a Compassion International e a Visão Mundial. A Missão Integral levou evangélicos ao redor do mundo a ampliar sua missão cristã, sob o argumento de que ação social e evangelismo são componentes essenciais e indissociáveis — nas palavras de Padilla, como as “duas asas de um avião”.

A influência de Padilla veio à tona com mais destaque no Congresso de Lausanne, em 1974, onde ele fez um empolgante discurso em sessão plenária. Quase 2.500 líderes evangélicos de mais de 150 países e de 135 denominações se reuniram em Lausanne, na Suíça, em uma reunião promovida principalmente pela Billy Graham Evangelistic Association (BGEA). Uma revista influente chamou Lausanne de “um fórum formidável, possivelmente o encontro de cristãos de espectro mais amplo já realizado”. Quando Padilla subiu à plataforma, ele carregou consigo as esperanças e os sonhos de muitos evangélicos do Sul Global, que buscavam igualdade na tomada de decisões de igrejas e organizações missionárias em todo o mundo.

Padilla exortou especificamente os evangélicos americanos a se arrependerem por exportar o ‘American way of life’ [termo que pode ser traduzido como ‘sonho americano’] para campos missionários de todo o mundo, mas sem nele incluir a responsabilidade social e o cuidado com os pobres; e assim, Padilla lançou a bandeira da Missão Integral.

‘Jesus Cristo veio não apenas para salvar minha alma, mas para formar uma nova sociedade’, disse ele em Lausanne.

A história de vida de Padilla foi surpreendente em seu alcance global — desde uma infância pobre na Colômbia e no Equador até chegar a inspirar evangélicos em todo o mundo. Ele ministrou com os missionários americanos Jim Eliot, Nate Saint e Pete Fleming, antes de suas mortes prematuras perto de Quito, em 1956; foi tradutor nas cruzadas de Billy Graham pela América Latina, na década de 1960; foi amigo íntimo de John Stott, a quem acompanhou em viagens para palestrar, na década de 1970; serviu de ponte para eliminar a divisão crescente entre uma geração mais jovem de evangélicos do Sul Global e líderes dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, nas turbulentas décadas de 1960 e 1970; e liderou organizações evangélicas globais. Ele também teve seus escritos amplamente publicados em jornais teológicos e publicações estudantis, como a da InterVarsity Christian Fellowship (IVCF).

[…] Carlos René Padilla nasceu em Quito, Equador, em 12 de outubro de 1932. Ele cresceu junto com a comunidade missionária americana na região, tendo sido pioneiro em projetos de evangelismo e tradutor de programas de rádio dos Estados Unidos, quando era um jovem adolescente, para o ministério de rádio HCJB. Quando criança, Padilla sabia que era diferente, marcado por uma identidade religiosa marginalizada e excluída pela cultura latino-americana mais ampla. O pai de Padilla trabalhava como alfaiate para se sustentar, mas era um plantador de igrejas no coração. Seus pais se tornaram cristãos evangélicos antes de seu nascimento, por influência do tio de Padilla, Eddie Vuerto, que, segundo Padilla, foi um dos primeiros pastores evangélicos do Equador.

A plantação de igrejas era um empreendimento perigoso na fervorosa Colômbia católica romana, para onde sua família se mudou em 1934. Suas casas foram alvo de bombas e ele e seu pai sofreram várias tentativas de assassinato, enquanto plantavam igrejas e realizavam evangelismo a céu aberto. Padilla carregava cicatrizes de pedras atiradas contra ele, quando tinha 7 anos de idade, em ataque sofrido enquanto caminhava pelas ruas de Bogotá, tentando chegar na escola local.

[…] Em 1959, Padilla se formou em filosofia e concluiu seu mestrado em teologia. Mas ele se formou in absentia, uma vez que já fazia parte da equipe dos movimentos estudantis da International Fellowship of Evangelical Students (IFES) na Venezuela, na Colômbia, no Peru e no Equador. (A organização global IFES surgiu da InterVarsity Christian Fellowship, cujo foco era voltado apenas para os EUA).

Da América Latina, Padilla propôs casamento a Catharine Feser, sua amiga americana de longa data, também graduada em Wheaton, que trabalhava na InterVarsity. Ele descreveu sua proposta de casamento como explicitamente dupla: casar-se com ele e com a América Latina. Seu compromisso com a América Latina como campo missionário teria um papel importante no ministério do casal. (Ela acabaria rejeitando os EUA e juraria nunca mais voltar.) Catharine editou quase tudo que René escreveu, incluindo seu discurso de 1974, em Lausanne. Ela fez uma ponte crucial entre a proficiência na língua inglesa e a fluência nativa.

Padilla passou a desempenhar um novo papel, seis meses depois que o regime de Fulgencio Batista foi derrubado em Cuba, pelas forças comunistas leais a Fidel Castro. A revolta despertou os jovens da região para a realidade de que o imperialismo americano não era inevitável e o sucesso da empreitada ampliou as tendências nacionalistas, lançando suspeitas generalizadas sobre as ideias estrangeiras. A maioria dos materiais teológicos evangélicos na América Latina tinha pouco a dizer sobre a influência das ideologias marxistas. Retornar dos subúrbios americanos para o contexto político tumultuado da América Latina chocou o jovem equatoriano, e pôs em questão suas categorias teológicas, particularmente aquelas adquiridas por sua educação em Wheaton.

[…] Nos anos 1960 e início dos anos 1970, Padilla começou a falar da pobreza teológica da América Latina, lamentando que questões locais estivessem sendo abordadas com respostas estrangeiras. Padilla uniu forças com Samuel Escobar e Pedro Arana, colegas da IFES, além do missionário Orlando Costas, criando uma coalizão eclética de teólogos inquietos. Juntos, eles compartilharam experiências de vida em contextos injustos e desiguais, durante os tempos da Guerra Fria; também compartilhavam uma frustração com o modo que muitas organizações evangélicas tratavam os latino-americanos.

Uma dessas frustrações ocorreu no ‘Primeiro Congresso Latino-Americano para Evangelização’, patrocinado pela BGEA, em 1969, mais conhecido por sua sigla em espanhol, CLADE. O evento foi uma tentativa de ajudar pastores e teólogos latino-americanos a enxergarem os perigos das teologias de inclinação marxista, bem como de impor categorias teológicas dos Estados Unidos à região. A BGEA observou que havia um avanço aparentemente desenfreado de movimentos teológicos radicais promovidos por proeminentes teólogos da libertação de primeira geração, e que o compromisso com a missão evangelística protestante tradicional começava a diminuir. Mas, para a embrionária esquerda evangélica latino-americana, o CLADE representava o ressurgimento do paternalismo e do imperialismo evangélico americano. Padilla chamou a conferência de ‘made in the USA’ e disse que o paternalismo era ‘típico da maneira como o trabalho às vezes era feito na ala conservadora’.

Em um artigo de 1973 para a Christianity Today — o primeiro artigo da revista a abordar diretamente a teologia da libertação — Padilla alertou os evangélicos conservadores a abordarem os próprios preconceitos ideológicos antes de criticarem a teologia da libertação. Ele também rejeitou a própria teologia da libertação, ao concluir: Onde está a teologia evangélica que irá propor uma solução com a mesma eloquência, mas também com uma base mais firme na Palavra de Deus?’.

[…] Para Padilla, no entanto, abraçar a mensagem mais ampla do evangelho era crucial para a missão cristã. ‘A falta de apreciação das dimensões mais amplas do Evangelho leva inevitavelmente à má compreensão da missão da igreja, disse ele. ‘O resultado é um evangelismo que considera o indivíduo como uma unidade autossuficiente — um Robinson Crusoé, a quem o chamado de Deus se dirige como [se estivesse] em uma ilha’.

[…] Além de encontros globais, Padilla dedicou grande parte de seu tempo à formação teológica em Missão Integral de pastores e líderes leigos em toda a América Latina, por meio do Centro de Estudios Teológicos Interdisciplinários (CETI), fundado com Catharine, em 1982.

Padilla foi precedido na morte por sua primeira esposa e colega de longa data, Catharine Feser Padilla, em 2009. Ele deixa a segunda esposa, Beatriz Vásquez, seus cinco filhos com Catharine, Daniel, Margarita, Elisa, Sara e Ruth, bem como vários netos.

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