“Os evangélicos disseram sim à tirania”, afirma pastor Ariovaldo Ramos

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Pastor Ariovaldo Ramos

“A igreja brasileira se tornará insignificante.” A avaliação — que vai na contramão da projeção do IBGE de expansão dos evangélicos — é do pastor Ariovaldo Ramos. Para ele, os religiosos dessa doutrina escolheram esse caminho, ao se submeterem às escolhas e ao negacionismo do governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Em entrevista ao Metrópoles, Ramos, que é presbítero da Comunidade Cristã Reformada e coordenador da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, e foi conselheiro do Programa Fome Zero na gestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), lamentou o atual momento da igreja no Brasil. O pastor evangélico a vê se distanciando do que seria uma entidade cristã.

Para justificar a avaliação de que a igreja brasileira perderá o seu lugar de poder, ele lembra o que houve com a alemã, ao apoiar Hitler. “Ela nunca mais foi a mesma. Por mais que houvesse cristãos que resistiram à violência do nazismo, ela perdeu o seu significado”, explica o pastor.

Os posicionamentos do pastor batem de frente com os muitos líderes evangélicos em evidência no Brasil, como Silas Malafaia. Hoje, Ramos se reconhece como um “cancelado” da igreja evangélica. Por outro lado, avalia que representa resistência em tempos em que seus antigos amigos “abraçaram a tirania”.

Leia trechos da entrevista:

Como ocorreu o alinhamento entre a igreja evangélica e o governo atual?

O primeiro movimento foi o de adesão à ditadura militar. Houve um golpe dentro da igreja evangélica, quando lideranças conservadoras assumiram o poder e muitos evangélicos foram presos, torturados ou exilados, porque foram entregues por bispos, líderes e convenções de igrejas.

Depois, chegou a pregação da prosperidade, uma pregação para sustentar o capitalismo, principalmente o capitalismo estadunidense. Juntamente com ela, chegou a pregação da batalha espiritual, que considera que a gente tem de atacar o diabo nas suas ações estruturais e institucionais.

Com isso, eles começam a identificar “instituições diabólicas”. Aí incluem maçons, partidos políticos de esquerda, enfim, um montão de entidades e posturas vão sendo categorizadas como essas instituições. Dentre elas, o Partido dos Trabalhadores.

Em relação ao PT, por causa do Lula, aconteceu uma cena muito curiosa nos bastidores da pregação da batalha espiritual. Houve uma parte do movimento que apoiou o Lula. Inclusive, entendia que era vontade de Deus a reeleição dele. Outra parte acreditava que ele era a ponta de lança das instituições satânicas. Isso gerou uma ruptura, mas, na ocasião, a maioria ficou com Lula e com o movimento progressista. Eles eram beneficiados por todo o trabalho do Lula no combate à fome e na valorização do salário mínimo.

A igreja ficou meio dividida nesse processo, mas, com a chegada da [ex-presidente] Dilma [Rousseff], o quadro mudou. Primeiro, por causa da misoginia. Os evangélicos, na maioria dos casos, não conseguiam ver uma mulher governar. Depois passaram a entender que ela representava a extrema esquerda, por ter sido guerrilheira. E que ela não deveria estar onde estava.

A igreja – que estava no centro, porque ela nunca foi para a esquerda, e considerando intoleráveis as posturas do PT – voltou para a direita com força total. Passou a denunciar o governo Dilma como esse movimento temerário de esquerda.

Além disso, outro fator determinante foi o medo da devassidão moral. Fake news diziam que o PT estava fechado com a agenda LGBT e que essa agenda queria erotizar os nossos filhos e causar uma devassidão moral.

Isso foi ajudado pelo PL nº 122 da senadora Marta Suplicy, porque, embora o conteúdo fosse justo, ele resvalava na possibilidade de igrejas serem interditadas se não aceitassem, por exemplo, o casamento homoafetivo. Aí os pastores – que já estavam caminhando do centro para a direita – pularam na direita com tudo, de forma impressionante e assustadora.

Na verdade, voltando para direita, porque a maioria das igrejas evangélicas tomou partido da ditadura e, depois, ficava naquela oscilação com os governos da hora. Enfim, esse é o quadro que eu desenho hoje, observando o passado.

O que leva a igreja a se inclinar para esse lado, como o apoio a ditadura militar ou até mesmo à própria política instaurada hoje no país?

É incompreensível. A igreja sempre acreditou na recuperação humana. A gente sempre acreditou no arrependimento. Nós fomos o primeiro grupo a reagir em favor dos encarcerados, dos usuários de drogas. Criamos casas de recuperação, clínicas. A gente foi, sem dúvida nenhuma, uma das primeiras instituições a reagir em favor do explorado.

De repente, um discurso como “bandido bom é bandido morto” começou a ser acolhido da forma mais acrítica possível. Muitos desses “bandidos” que iriam morrer são filhos de evangélicos da periferia. Não faz nem sentido, porque a maioria da igreja evangélica é da periferia. Esta periferia é negra, é feminina, é empobrecida. A minoria da igreja evangélica atingiu a classe média ou alta. A massa evangélica é empobrecida, negra e trabalhadora.

Em que momento a teologia da prosperidade entra nessa história?

A pregação da prosperidade trouxe o capitalismo mais selvagem como se fosse parte da nossa declaração de fé. E transformou a fé de algo recebido por Deus e de Deus, para a nossa redenção, em um poder sobre Deus. Então a fé da prosperidade é uma ferramenta de poder sobre Deus. Por isso eles determinam, decretam.

Na fé cristã, a pobreza é uma injustiça. O evangelho, inclusive, é pregado aos empobrecidos para levar justiça até eles, para exigir igualdade, exigir partilha pra condenar toda acumulação. A pregação da prosperidade mudou isso. Ela transformou a pobreza em maldição e em demonstração de falta de fé.

Com a pregação da prosperidade e a pregação da batalha espiritual, a igreja evangélica abandonou a doutrina da graça e reassumiu a doutrina das obras. Você investe pouco, não dá o dizimo ou oferta, então Deus não multiplica, e por aí vai. Pastores passaram a ser verdadeiros ladrões, um covil de demônios vivendo às custas da pobreza das suas ovelhas prometendo-lhes o que jamais iriam entregar.

Essa ideia de conquista, de determinismo, fez a igreja voltar ao pensamento de governo teocêntrico. Com isso, decidiram que agora era a vez de os evangélicos mandarem no país. E disseram sim à tirania. Mas existem grupos que resistem a tudo isso.

Quais grupos são esses?

São as comunidades de resistência. Por exemplo, a minha comunidade é ativa. Mesmo virtualmente, mantemos a lógica da comunhão. Cristo nos ensinou a criar comunidades de amor como meios efetivos na luta contra os impérios. Somos uma comunidade de resistência à direita, à tirania, ao neoliberalismo, à injustiça. Antes e acima de tudo, pregando a mensagem de Cristo, que é uma mensagem de amor, de arrependimento, de um novo jeito de ser gente.

Agora, o grupo da resistência tem um problema que precisa enfrentar. Muitos dos que decidiram resistir abandonaram a lógica da comunidade de Cristo. Abriram mão da ideia de comunidade, da vida comunitária, até porque foram contaminados por esse templocentrísmo e não perceberam isso. Embora eles fossem contra a pregação de direita, eles eram templocentristas também. E quando eles romperam com a pregação, eles romperam com a comunhão. Isso é um agravante, porque enfraquece a força da fé cristã.

A gente tá sempre incentivando as pessoas a montarem outras comunidades. Jesus Cristo disse: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei lá” [curiosamente, o pastor usa o mesmo trecho bíblico esgrimido por um advogado no julgamento do Supremo Tribunal Federal para defender a liberação de cultos e missas presenciais durante a pandemia]. Não precisa de estrutura institucional, não precisa de nada disso. A ideia é comunhão, a ideia não é instituição.

Pegando esse gancho, qual a sua opinião quanto à decisão do ministro do STF Nunes Marques, que permitiu a realização de cultos e missas no pior momento da pandemia no país?

Essa decisão do ministro Kassio é uma aberração, e coopera com o crime de genocídio. Ela vai intensificar ainda mais as mortes [a entrevista foi concedida antes de o STF decidir, no dia 8 de abril, manter a validade dos decretos estaduais e municipais vetando celebrações religiosas presenciais]. Muitos evangélicos morreram. A maioria desse grupo foi relapsa, não fez distanciamento, não usou máscara e não usou álcool em gel, como deveria. Banalizou o vírus, seguindo a linha negacionista do presidente Jair Bolsonaro. E pagaram por isso.

Isso tem que ficar muito claro pra todo mundo: os evangélicos estão pagando um preço altíssimo pelo seu negacionismo. E estão vendo seus pastores, pastoras e membros de suas igrejas morrerem. Gente que era reserva de sabedoria está indo embora prematuramente. Uma morte que poderia ter sido evitada. Essa decisão do ministro é estapafúrdia, uma aberração.

Você fala de resistência: a gente pode dizer que um novo modelo de igreja está surgindo? Houve uma cisão na igreja evangélica brasileira?

Eu diria que sim, que não tem retorno. A ruptura foi tão profunda que causou uma relação de ódio. Não foi uma coisa que se ateve ao discurso. Houve, de fato, cisões.

Nós temos uma experiência histórica – que foi o nazismo. Apenas um grupo diminuto de evangélicos resistiu ao nazismo. Esse grupo é simbolizado por Dietrich Bonhoeffer [teólogo e pastor membro da resistência alemã antinazista que se envolveu em uma trama para matar Hitler. Acabou sendo preso e morto].

Com isso, a igreja alemã perdeu muito da sua força e credibilidade. Uma igreja que morreu porque tomou partido do nazismo, do holocausto, da barbárie. Claro, com a grande exceção dos evangélicos que resistiram. Apesar disso, eles não conseguiram mais se estabelecer como opção de fé. Sobreviveram à guerra, mas não recuperaram a força que um dia tiveram.

Pode ser que aconteça alguma coisa com a igreja que tá no Brasil, que a gente até consiga se reencontrar de alguma maneira. Mas quem é que vai acreditar nos presbiterianos, nos batistas, nos congregacionais, na Assembleia de Deus, na Universal…? Isso tudo se mancomunou com o genocídio. Essa gente foi lá e beijou as mãos do presidente. Alguns se tornaram ministros ideológicos.

Eu não sei se tem retorno, porque esse negócio foi muito profundo. Pensamentos e teologias foram remodelados. Se tiver uma reacomodação, como houve na Alemanha, vai ser com essa lógica de tirar a autoridade de todos, até mesmo de nós que resistimos. A única saída que eu vejo é oferecer outros modelos de vida e de comunidade cristã.

Em um determinado momento da sua caminhada, você se posicionou em defesa da Dilma e do Lula. Isso, de alguma maneira, impactou sua vivência como pastor. Ainda há impactos na sua vida?

Quando começaram a falar em impeachment, eu fui a Brasília, conversei com um monte de gente, de ambas as posições, e cheguei à conclusão de que a presidenta não tinha cometido crime nenhum. Portanto, ela não era passível de impeachment.

E aí comecei a protestar. A gente fez um manifesto pedindo respeito às eleições e pedindo observância ao Estado Democrático de Direito. Nesse momento, começou o problema. Na ocasião, mais de 5 mil pessoas assinaram o texto em menos de 48h. A adesão foi fantástica. Mas, em seguida, aqueles que assinaram começaram a sentir a reação da suas igrejas locais, compostas por muita gente da classe média.

Eu fazia parte do Missão na Íntegra, um grupo que pregava a partir da ênfase de que a igreja tinha que ser relevante. Cerca de 10 pessoas compunham o grupo. Eles me chamaram pra uma reunião. Quando cheguei lá, os colegas já tinham decidido contra mim. Eles entendiam que eu tinha me envolvido em questões de ordem político-partidária. Aí que me dei conta de que eles já estavam sob a pressão dos antipetistas. E praticamente todos saíram do Missão.

Esse grupo se desfez, e eu comecei a ser o que hoje se chama de cancelado. Estavam me cancelando por entenderem que eu tinha ficado do lado do PT.

Nos processos contra o Lula, comecei a dizer que não havia sustentação para aquele tipo de acusação – e, depois, prisão.

Nesse contexto, criei, com outros irmãos, a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito. E o cancelamento cresceu. Começaram acusações de toda sorte, e as calúnias se multiplicaram. Por exemplo, diziam que eu estava desviando dinheiro do governo e que eu era pago para defender o PT. Nunca recebi nada de ninguém. Até quando fui do Conselho de Segurança Alimentar, no governo Lula, eu não ganhava nada, tirando as passagens para estar em Brasília. Eu abri mão até do meu direito de ficar em hotel, porque eu tinha onde me hospedar.

Você foi conselheiro do Programa Fome Zero, que ajudou a tirar o Brasil do Mapa da Fome. Agora, o país está voltando para esse mapa. O que governo poderia ter feito para que isso não acontecesse novamente?

O governo tinha de repensar e adotar outra política econômica. Já se sabe que neoliberalismo, não só no Brasil, mas no mundo, é incapaz de produzir riqueza e justiça. Ele só serve para acumular riqueza na mão de poucos, mas não para produzir riqueza para a nação.

Além disso, o governo precisa intensificar as rendas básicas mínimas. O governo não fez isso, e a fome voltou. O povo ficou sem renda básica. Pequenos e médios empresários, que geram empregos, ficaram sem o seu negócio.

A Frente Evangélica participa da campanha “Se tem gente com fome, dá de comer”, da Coalizão Negra por Direitos, mas as doações despencaram.

A comida que tem tá pela hora da morte. Só quem tem dinheiro consegue comprar comida. Não tem mais produção suficiente de arroz, feijão, mandioca, milho e batata, que é o menu básico do brasileiro. Resta a ajuda do pessoal da reforma agrária, o MST (Movimento Sem-Terra), que produz e está tentando salvar a situação, como pode.

Fonte: Metrópoles (Leandro Barbosa)


Folha Gospel

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